domingo, 14 de março de 2021

"Golpe" é palavra a ser resgatada para definir o que houve com Lula e o PT

Por Chico Alves (colunista da UOL)
Fonte: UOL
13/03/2021
Ministro Dias Toffoli, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal
Imagem: Nelson Jr./SCO/STF

São estarrecedoras as últimas revelações sobre as estrepolias antidemocráticas que o general Eduardo Villas Bôas promoveu em 2018, quando ainda era comandante do Exército. Matéria de Mônica Gugliano e Tânia Monteiro para a revista Piauí conta que o militar se encontrou em agosto daquele ano com o ministro Dias Toffoli, então presidente do Supremo Tribunal Federal, para determinar o rumo que deveria tomar a eleição presidencial, marcada para dois meses depois. 

De acordo com a apuração das duas jornalistas, Toffoli cumpriu o papel pusilânime de garantir ao general que enquanto estivesse à frente do STF o ex-presidente Lula, então preso em Curitiba, não seria libertado. Além disso, Além disso, empenhou a palavra de que a Lei de Anistia não seria alterada. 

Sobre as acusações, o ministro do Supremo respondeu à revista apenas que nunca tratou de pauta com Villas Bôas. Réplica lacônica demais para a gravidade da notícia.

Como todos sabem, na eleição que se seguiu o candidato apoiado pelo general, Jair Bolsonaro, venceu o pleito e tornou-se o desastroso presidente que hoje nos governa. Pouco depois da posse, Bolsonaro agradeceu a Villas Bôas pela vitória.

"O que conversamos morrerá entre nós, o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui", disse o presidente ao general.

O destinatário do agradecimento é o mesmo, lembre-se, que em abril de 2018, ainda à frente do Exército, disparou tuite ao STF interpretado como intimidação para que o pedido de habeas corpus de Lula não fosse aceito. Foi o que aconteceu e o petista acabou na cadeia.

O conjunto da obra de Villas Bôas, tanto em 2018 quanto antes (quando permitiu a Bolsonaro um inédito acesso aos quartéis para fazer sua pré-campanha), representou um belo empurrão para o atual presidente.

Diante disso, chega a ser irônico que alguns militares tenham se irritado com as reclamações do ex-presidente Lula contra o general em seu primeiro discurso após a anulação das condenações na Lava Jato. Talvez quisessem que o petista agradecesse pelo complô.

Junte-se a isso as ilegalidades praticadas pela força-tarefa da Lava Jato e por Sergio Moro — algo hoje reconhecido mesmo por lavajatistas outrora convictos —, e a desculpa esfarrapada para o impeachment da presidente Dilma Rousseff (até deputados que votaram pelo impedimento admitem isso) e chegaremos sem esforço à conclusão de que houve um golpe contra o PT.

Nos últimos anos, esse se tornou um vocábulo maldito na imprensa. Mesmo jornalistas que têm certeza de que houve tramoia hesitam em pronunciar ou escrever a palavra "golpe" por receio de serem taxados de petistas.

É mais ou menos a lógica dos bolsonaristas: quem critica Bolsonaro é comunista, seja FHC, Sergio Moro ou Major Olimpio. Numa linha paralela, em alguns círculos engravatados quem fala que houve golpe contra o PT é classificado como petista ou esquerdista radical.

Talvez há alguns anos, sem saber o que se sabe hoje, algum desavisado pudesse atribuir a derrocada dos petistas apenas à roubalheira que ocorreu na Petrobras (como se não tivesse havido roubo antes, sem que nenhum presidente tivesse caído). Com tudo o que vem sendo revelado desde 2019, porém, não é mais possível manter esse jogral.

Um dos objetivos do jornalismo é buscar as palavras mais exatas possíveis para descrever fielmente os fatos. O que foi descrito na matéria da Piauí, as revelações contidas nos diálogos entre Moro e a força-tarefa de Curitiba e a frágil base jurídica para o impeachment de Dilma, tudo isso converge para um substantivo capaz de definir muito bem o que aconteceu: golpe. E, como se vê agora, com o Supremo, com tudo.




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