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domingo, 29 de abril de 2018

“O que o Petrolão uniu, nem o STF separa” e outras notas

Antonio Palocci tentou fazer delação e o MPF não quis. Ninguém entendeu, mas todo mundo desconfia

Por Valentina de Botas access
28 abr 2018

Antonio Palocci (Sergio Dutti/Estadão Conteúdo)

Valentina de Botas

Como se ainda precisasse, a delação de Antonio Palocci unirá o inseparável que o STF quis separar. A conta Amigo recebeu (nossa) grana de contratos com outras estatais, não só da Petrobras. O próprio juiz Sergio Moro, numa resposta à defesa de Lula, afirma que foi assim. Dessa forma, não falta base técnica à tese de Dias Toffoli que baseou a decisão do STF para separar partes do todo no processo do sítio que eu (só eu?) acho que Lula tem em Atibaia. Mas também não falta base técnica para a tese contrária que vigorava até aquela decisão, pelo simples fato autodemonstrável de que há também (nossa) grana da Petrobras nessa roubalheira inédita que pagou de pedalinhos à antena de telefonia celular, além de evitar tumultos processuais que podem enfraquecer as investigações (coisa que ninguém deseja, certo?) e dão cada susto na gente que vou te contar.

Ainda há outros juízes nesta Berlim esculhambada

Sergio Moro é o juiz natural da causa (outro conceito do juridiquês que temos de decorar se não quisermos passar vergonha no almoço de domingo com a parentada) do sítio e do triplex, excetuando-se três ministros do STF e a grei petista, quase ninguém duvida que isso está de acordo com códigos, arcabouço legal, procedimentos, regras, jurisprudências e tal. Isso não autoriza afirmar que somente Moro ou somente em Curitiba se faz justiça. No entanto, a afirmação absurda, digna do troféu Yolhesman Crisbelles (quem lembra?) cintilou no céu da pátria, de norte a sul. Lula descerá a infernos infernais se o MPF/SP de fato se encarregar da investigação que tem o sítio como objeto.

Confio no MPF/SP para que esse personagem nefasto onipresente no noticiário nem perceba a mudança da jurisdição. Bem que eu queria constatar uma diferença por parte dos procuradores paulistas: que eles adotem o decoro, resistam a holofotes, redes sociais, entrevistas quase diárias (Carlos Fernando dos Santos Lima, por exemplo, fala até à lâmpada da geladeira); que se atenham ao trabalho técnico para o qual são muitissimamente bem pagos e deixem a política ─ que os tuiteiros do MPF tanto execram no horário do expediente, enquanto se calam sobre as delinquências de Guilherme Boulos ─ para os políticos. Aliás, ultrapassou qualquer limite do tolerável a reação de Carlos Fernando e de outros membros do MPF à decisão do STF. Xingamentos e sugestão de ataques físicos ao trio da segunda turma seriam só um desabafo exagerado, mas compreensível, de cidadãos comuns; contudo, vindos de agentes da lei, alguns já uma espécie inusitada de influencers, são um crime, é disso que se trata. Desse jeito, logo acaba a gasolina para apagar tanto incêndio.


Entre anjos e demônios

Fez sucesso um vídeo em que Wadih Damous, figura desagradável como toda figura autoritária, fala do que considera uma aliança com o ministro Gilmar Mendes. Seria uma trégua: hoje, Mendes é aliado “deles”; amanhã, inimigo. Não há ilegalidade anunciada ou constatada, mas quando se trata de anticristos e demônios, sem uma reflexão no meio, o vídeo que poderia ser só uma bravata de Damous é prova de… de quê? De que Mendes é o anticristo, oras, o demônio. A imprensa que ensina o ódio a ele e os aprendizes se deleitaram. Sobriedade para quê? Não serei eu a dizer como as pessoas devem se divertir. Tem gente que quer matar Mendes devagar, outros arrancar-lhe a cabeça e cuspir no pescoço descabeçado, outros ainda, mais brandos, querem apenas continuar com as odiosas, perigosas e inúteis abordagens na rua, em aviões, etc., além daqueles que pedem o impeachment do ministro, patuscada inconsequente desfalcada de pelo menos três nomes: Barroso, Fachin e Lewandowski.

Apesar de não querer me meter na diversão alheia, talvez seja interessante dar uma variada, olhar para o outro lado, afinal, são amplos os horizontes de nossas mazelas reais ou inventadas e as caravelas chegam de pontos diversos. Renan Calheiros é o astro de 18 inquéritos. A memória peripatética dos últimos cinco governos conhece o funcionamento do poder e dos poderes. Não é pouca coisa. Então, Rodrigo Janot anuncia que concorreria a uma vaga no Conselho Nacional do Ministério Público. Uma espécie de corregedoria. Em seguida, o arcaico coronel alagoano, posta este vídeo (tentem ouvir livres do maniqueísmo sempre ilusório de anjos e demônios, pois o jogo é bruto e nada simples) dizendo que “1 – Janot agora quer entrar no Conselho Nacional do Ministério Público. Ele e sua turma foram pegos fazendo jogo duplo e com a mão na botija. Mesmo assim, o ex-procurador quer uma vaga para fiscalizar a sucessora. Quer ser o sentinela à porta de Raquel Dodge. Por que será?” e “2 – MPF não pode continuar sendo medido pela régua suja de Janot, Miller, Deltan, Anselmo e Pelela”. O que faz Janot? Dá uma declaração agressiva ou cínica como faz para comentar qualquer declaração de Aécio ou Temer ou alguma decisão do STF que o desagrada? Não. Retirou a candidatura no dia seguinte à postagem de Renan. Que tal? A gravidade do fato de um Renan calar um ex-procurador-geral da República é uma caravela que o país, preso ao cercadinho da indignação sem reflexão aprendendo todos os dias que o demônio é só o STF, não enxerga no horizonte.

O que o Petrolão uniu, ninguém separa mesmo



Antonio Palocci tentou fazer delação e o MPF não quis. Ninguém entendeu e todo mundo desconfia. Rodrigo Janot, aquele um calado por Renan, não quis saber do que Palocci sabia. Mas todo mundo sabe: Janot sempre tentou proteger Dilma. Só Janot? Sabemos que tal rede de proteção foi tecida por Barroso (o que é melhor nem lembrar ou estraga a narrativa do herói novinho em folha), por Lewandowski (auxiliado por Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues), Janot que não denunciou Dilma por Pasadena, rasgou a delação de Léo Pinheiro e evitou a de Palocci. Fachin também faz sua trama nessa rede protetora: por isso, tentando escapar da obrigatoriedade de validação por parte do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, Palocci, na nova delação, evitou citar pessoas com foro privilegiado. Assim, de um modo ou de outro, com avanços e recuos, gasolina apagando incêndios, anjos e demônios, caravelas se revelando no horizonte, o país, coitado, tenta se livrar do que não presta. O governo Temer, em que pese seu bom desempenho ─ que poderia ter sido melhor não houvesse os protetores de Dilma no caminho ─ em tão curto tempo e no contexto de desgraças em que se iniciou, vai acabando e tomara que leve consigo o que trouxe do miserável regime petista. E o próprio Temer terá de haver com a Justiça. Pois que, sempre dentro da lei, todos prestem contas e o Brasil encontre a paz de que precisa para ter a si mesmo como assunto.

Como era gostoso o meu francês

Com aqueles olhos da Capitu, um resto de sorriso sempre, como era bonito o Nelson Pereira dos Santos! Obrigada por ter estado por aqui, cumprindo teu belo destino, bronzeando o realismo italiano e a nouvelle vague francesa em pleno Rio 40 graus. Obrigada por ter estado por aqui.

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