domingo, 17 de setembro de 2017

Para Lula, só é criminoso quem revela os crimes de Lula

Quanto Sergio Moro aceitou a denúncia do MPF que tornou Palocci réu da Lava Jato, Lula declarou que o companheiro era uma flor de integridade

Por VEJA.com

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Prefeito de Ribeirão Preto de 1993 a 1996, descobriu-se que Antonio Palocci andava fraudando licitações para a compra de cestas básicas e cobrando mesadas de empresas fornecedoras da administração municipal. Imediatamente, Lula garantiu que Palocci jamais faria uma coisa daquelas. A demonstração de confiança foi reiterada em 2002, quando o chefe ordenou ao prefeito que renunciasse ao segundo mandato para comandar a coordenação financeira da campanha presidencial que  levaria ao poder o candidato do PT.

A recusa dos primeiros da fila dos cotados para o cargo antecipou a chegada de Palocci ao Ministério da Fazenda, onde brilhou até meados de 2006. Começou a perder o emprego quando se descobriu que o manda-chuva da economia frequentava assiduamente a mansão em Brasília conhecida como República de Ribeirão. O ministro negou o status de freguês mais graduado do local reservado a festas ornamentadas por belas mulheres e lobistas com prontuários assustadores. Testemunha das constantes aparições do chefe, o caseiro Francenildo Costa implodiu a versão anêmica. E entrou na mira da bandidagem.




À caça de irregularidades que comprometessem a credibilidade de Francenildo, Palocci encomendou o estupro do sigilo da conta que mantinha na Caixa Econômica Federal. Imediatamente, Lula declarou que o grande companheiro jamais faria uma coisa daquelas. Fracassadas as tentativas de mantê-lo no cargo, o presidente caprichou na pose de viúva inconsolável ao despedir-se do parceiro a quem conferiu o título de “melhor ministro da Fazenda que o Brasil já teve”.

Em 2009, quando o ministro Gilmar Mendes inventou o estupro sem estuprador para absolver Palocci no julgamento do caso do caseiro pelo Supremo Tribunal Federal, Lula lançou a candidatura do então deputado federal a governador de São Paulo. Em 2010, o chefão decidiu que o ex-ministro seria muito mais útil no papel de coordenador da campanha presidencial de Dilma Rousseff. Consumada a vitória do poste, o fabricante ordenou-lhe que instalasse o craque em coleta de doações eleitorais na chefia da Casa Civil.

Palocci durou pouco no emprego. Soterrado por bandalheiras que transformaram em multimilionário um despachante de negociatas fantasiado de consultor de negócios, foi despejado do 4° andar do Planalto em 7 de junho de 2011. Lula repetiu que o companheiro era inocente. Em novembro de 2016, quando Sergio Moro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal que incluiu o ex-ministro entre os réus da Lava Jato. Lula solidarizou-se com o “exemplo de integridade”.

O ex-presidente repetiu a afirmação em junho passado, depois da condenação de Palocci a 12 anos de cadeia, e derreteu-se em elogios em sucessivas entrevistas. Numa delas, protestou contra a injustiça perpetrada contra “um dos homens mais inteligentes, leais e respeitáveis” que já conheceu. Também por isso, jurou que não lhe tirava o sono uma possível delação premiada do parceiro acusado por executivos da Odebrecht de administrar pessoalmente a conta de Lula no Departamento de Propinas da empreiteira. Ninguém mais qualificado do que o Italiano para lidar com a fortuna à disposição do Amigo.

Nesta quarta-feira, no segundo encontro com Sergio Moro em Curitiba, Lula mudou de ideia. Ainda grogue com as revelações de grosso calibre feitas por Palocci na semana anterior, enxergou no velho companheiro um “mentiroso, simulador, calculista e frio”. O setentão corrupto condenado a 9 anos e meio de gaiola anda enxergando as coisas pelo avesso. O Palocci que mentia para protegê-lo é que se encaixa nos adjetivos que agora usa. Tornou-se um perigo ambulante ao começar a contar a verdade.

A discurseira do ex-presidente a caminho da morte política também confirmou que os devotos da seita se curvam sem miados a uma regra que contém apenas uma exceção. A regra: “Todo petista é inocente, seja qual for o crime que tenha cometido”. A exceção: “Não haverá perdão para quem cometer o crime de revelar os crimes do mestre”.


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