quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Pesquisa revela ligação entre zika e deformidades nas articulações

Estudo feito por médicos pernambucanos foi publicado na última terça (9). Comprometimento na medula é apontado como causa da condição.

Deformidade de membros e de articulações foi constatada em bebês com características 
típicas da síndrome congênita do zika (Foto: Reprodução/British Medical Journal)

Uma pesquisa desenvolvida por especialistas pernambucanos constatou uma ligação entre a síndrome congênita do zika e a artrogripose, comprometimento de membros e de articulações. Divulgado na última quarta-feira (9) na publicação científica British Medical Journal (BMJ), o estudo foi feito em sete bebês atendidos na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), no Recife.


“A artrogripose já existe independentemente de outro fator, mas começamos o estudo para entender o porquê da doença nessas crianças”, explica a neuropediatra Vanessa Van Der Linden, à frente do estudo. De acordo com a médica, as avaliações constataram que a artrogripose nos bebês foi causada por problemas neurológicos.

Ao longo da pesquisa, exames detectaram a condição em braços e pernas de seis crianças e somente nas pernas de um único bebê. Os exames feitos nos pequenos apontaram comprometimento motoneuroperiférico nos bebês, ou seja, deficiência que dificulta o envio de estímulos nervosos para o movimento dos músculos dos pequenos.

“Quando fizemos ressonâncias, notamos a redução de uma célula motora na medula”, salienta Vanessa. A partir desse resultado, foi possível explicar as alterações no movimento intra-útero e as deformidades nos membros superiores e inferiores dos pequenos.

Ainda de acordo com a especialista, todas as sete crianças que participaram do estudo apresentavam características típicas da síndrome congênita do zika, comprovadas através de ressonâncias e outros exames de imagem, mas apenas três possuíam o gene positivo do vírus. “É importante ressaltar que dentro dos sete bebês, um tinha perímetro cefálico normal, ou seja, não tinha microcefalia”, pontua a médica.

Apesar do resultado, a médica esclarece que a artrogripose é mais uma consequência da síndrome congênita do zika, sem apresentar relação com a gravidade do caso. “O comprometimento encefálico do bebê sem microcefalia, por exemplo, não é dos mais graves, mas ainda assim ele possui a artrogripose. Essa condição é, na realidade, um sinal da síndrome”, esclarece a neuropediatra.

Neuropediatra Vanessa Van Der Linden está à frente do estudo (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

Alerta

Diante da descoberta, a Van der Linden alerta para a importância de estudos voltados para a síndrome congênita do zika, enfermidade cujas consequências vão muito além da microcefalia. “A artrogripose deve ser investigada e os médicos devem cogitar essa síndrome como causa para a condição”, pontua. Além do comprometimento de membros e de articulações, a médica ainda alerta para consequências como comprometimento visual nas crianças portadoras da síndrome.

Além da neuropediatra, participaram do estudo outros pernambucanos especialistas em neurologia, oftalmologia e infectologia pediátrica, como a médica Ângela Rocha. Para ela, o resultado obtido no estudo ainda é primário, mas merece atenção dos especialistas. “Não temos controle de todos os serviços de acompanhamento a essas crianças nem podemos fazer uma estimativa de outros casos de artrogripose ligada à síndrome no momento, mas esse é um ponto a ser vigiado pelos médicos”, sugere.

Fonte: G1 PE
Marina Meireles


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